Nova Tamu-ra: O Conto dos Dragões Ryuu

Mais uma contribuição para a Iniciativa Tormenta da quinzena. Desta vez resolvi tentar algo novo, e escrever alguns mitos e lendas para Tamu-ra, um exercício que exigiu um pouco de inspiração nos mitos e lendas japonesas que ando lendo, e que pode fornecer uns bons ganchos e aventuras. O primeiro mito é sobre a origem dos Dragões Ryuu, espero que gostem. ^^

EDIT (05/11/10): Atendendo a pedidos, coloquei referências ao lado dos nomes tamurianos de deuses e lugares. Os nomes comuns artonianos estão no fim do texto.

A história de In e Yo, o pai e a mãe dos dragões:

Segundo algumas lendas tamurianas, Lin Wu criou o primeiro casal de dragões ryuu. O macho chamava-se In, o senhor dos céus, e a fêmea chamava-se Yo, a dama da terra. Lin Wu os criou diferentes e opostos para que juntos se completassem, preservando e pregando os valores de equilíbrio e honra que tanto prezava. Juntos, In e Yo geraram muitos filhos, o mais velho era Tatsu, que possuía os poderes do pai e da mãe, da luz e das trevas, recebendo a alcunha de Dragão do Vácuo e o título de Rei dos Ryuu.

Após muitos dragões terem nascido, Yo pôs um ovo em chamas, tão quente e poderoso ele era, que sua saúde havia sido consumida, e suas chamas queimaram as entranhas da mãe. Deste ovo nasceram Kagumatsu e Ho-Tsuchi, os Dragões Flamejantes. Exaurida após o parto, a mãe dos dragões decidiu partir para Yume-no-Kuni [1], o país dos sonhos, onde sempre era noite, governada por Yumeno Hime [2], a deusa dos sonhos e da noite. Despediu-se do marido e dos filhos e partiu.

Certa vez Lin Wu dissera aos seus irmãos divinos que Yo era bela e altiva como a noite estrelada e desde então Yumeno Hime passou a odiar secretamente a dragoa, pois acreditava que tais qualidades pertenciam somente a ela própria. Ciente deste ódio secreto (pois era capaz de farejar más intensões), Rokomata [3], o deus-serpente de 6 cabeças, visitou a deusa dos sonhos e pediu sua ajuda para tomar posse da mãe dos ryuu, a quem sempre desejara.

Um ano havia se passado, e preocupado com a falta de notícias da esposa, In foi ao país dos sonhos em busca da esposa. Lá, foi recebido por Yumeno Hime, que lhe disse que  a mãe dos dragões nunca chegara em seu palácio. Preocupado, In empreendeu uma longa busca pelos vastos países celestiais, em busca de sua esposa.

Dez anos se passaram quando finalmente a encontrou, em Akuma-no-Kuni, as terras infernais, governadas por Rokumata. In vagava com cuidado por aquele reino maldito quando ouviu os lamentos de sua esposa vindos de um bosque, correu para lá, mas o que viu o chocou: Yo estava absurdamente inchada, violada por demônios que debruçavam-se sobre a dragoa, enquanto que de seu ventre saiam dragões-diabólicos (doragonus). Chocado com a cena, o dragão amaldiçou sua esposa e partiu, perseguido pelos doragonus até as fronteiras das terras infernais.

Em sua fuga In chegou ao país dos sonhos, e lá foi consoladado pela rainha daquelas terras. Yumeno Hime o seduziu e com ele se deitou. Desta união, nasceu Yumitsulung, o Dragão das Profundezas, uma criatura horrível, nascida das trevas e da luxúria, de natureza malígna e destrutiva. In ficou horrorizado ao ver o filho bastardo e caiu em si. Clamou que Lin Wu o perdoasse por sua desonra, oferecendo a própria vida. Apunhalou-se com sua própria espada, e morreu.

Yumitsulung

Dizem que o sangue do pai dos ryuu espalhou por todo palácio da deusa dos sonhos. Deste sangue nasceram espíritos de luz (hikari-no-seirei). Suas luzes eram tão fortes que o céu de Yume-no-Kuni ficou claro como o dia, ferindo a deusa dos sonhos e suas criaturas. Os espíritos então levaram o corpo de In para a terra, onde o enterraram sob uma montanha. No momento do enterro, Akka, o mais luminoso dos espíritos, percebeu um brilho saindo do ventre do dragão, e de lá retirou uma katana de lâmina prateada: Tsuke-no-Ken, a espada da lua.

Ao saber da morte do pai, Tatsu partiu em busca de sua mãe, desejando entender o que aconteceu. Em sua jornarda, atravessou o Reino das Planícies Douradas [4], governadas pela deusa da natureza, onde derrotou o Rei dos Tigres em batalha, que decidiu servi-lo, acompanhado-o em sua busca. Mais tarde, contou com o auxílio da Tartaruga-Colosso para atravessar o vasto oceano governado pelo deus dos mares [5], e a tartaruga decidiu segui-lo, grata por Tatsu tê-la salvo de uma serpente marinha. Por fim,  no País das Chamas Eternas [6], o dragão encontrou uma Fênix de Penas Dourada, que havia encontrado o pai dos dragões anteriormente. O pássaro contou que In dirigia-se para as terras infernais de Akuma-no-Kuni, e decidiu acompanhar Tatsu, na esperança de aventuras e tesouros.

Ao chegar nas terras infernais, encontrou a mãe no mesmo estado que seu pai a tinha visto. Entretanto, diferente do impulsivo In, Tatsu era mais sábio, e antes de julgar quis ouvir a mãe. Pediu então para que a fênix cantasse uma bela canção, que fez com que os demônios e dragões-demônios sobre Yo caíssem em sono profundo. Desta forma, aproximou-se da mãe, que aos prantos contou sua ruína:

Ao chegar Yume-no-Kuni, ela havia se perdido por uma estranha trilha, chegando a um bosque de árvores carregadas de frutas suculentas, e estando faminta e enferma, Yo comeu um dos frutos, selando seu destino. A estranha trilha a tinha levado para Akuman-no-kuni, onde suas leis de Rokumata eram absolutas. Ao comer de um fruto deste reino, ela tornou-se parte daquelas terras, sua vida pertencendo agora ao deus-serpente de 6 caudas.

Tatsu quase foi tomado pela fúria ao ouvir esta história, mas o Rei dos Tigres o lembrou que Rokumata era invencível dentro de seu próprio reino. Este, ao saber da presença de Tatsu, avançou em direção a ele. Já esperando por isso, o rei dos dragões havia tomado providências: tirou das costas da Tartaruga-Colosso seis grandes barris de saquê (presente do deus dos jogos Wang-Ho [7]), e ofereceu-o a Rokumata, pedindo-lhe desculpas por invadir seu reino. O deus-serpente se acalmou, aceitando o presente do dragão, cada cabeça bebendo o saquê de um barril. Tanto bebeu, que uma a umas as cabeças caíram adormecidas.

Livre da ameaça do deus-serpente, Yo fez um pedido ao filho: “Estou para sempre perdida e desonrada, e daria fim a minha vida, se esta me pertencesse, mas nem este direito me foi concedido. Por favor filho, ponha fim a minha dor e desonra e de fim a minha angústia“. Dizem que esta foi a única vez que o Rei dos Dragões exitou por um momento, mas no fim, ele realizou o pedido da mãe, cortando-lhe a cabeça com um único e derradeiro golpe de sua espada. Do buraco do pescoço emergiu o cabo de uma espada, retirada pelo Rei dos Tigres antes da fênix cantar os rituais funérios. Esta era Taiyou-no-ken, a Espada do Sol, uma wakizashi de lâmina dourada que brilhava tão forte quanto o sol. Tatsu a guardou consigo e partiu daquelas terras malditas.

Tatsu e seus companheiros sagrados

A guerra dos dragões ryuu:

Após matar a própria mãe, manchando-se com o sangue de um parente. O rei dos dragões teria passado dois séculos se purificando sob a cachoira sagrada de Nagareboshi. Enquanto isto, Yumitsulung havia atingido grande tamanho e poder, e tal era seu gênio ruim, que fora expulso do país dos sonhos pela própria mãe. Chegando ao mundo terreno, o Dragão das Profundezas teve de enfrentar Kagumatsu, um dos Dragões das Chamas. Durante a batalha, ambos os dragões se feriram e seu sangue caiu sob a terra: do sangue  flamejante de Kagamatsu nasceram vários espíritos do fogo, enquanto do sangue negro de Yumitsulung nasceram os perversos onis.

A batalha durou 7 dias e 6 noites, até que Yumitsulung conseguiu arremessar Kagamatsu no mar, as chamas do dragão esfriaram, e Yumitsulung pode abocanhar o pescoço do inimigo sem queimar-se, matando o meio-irmão. Esta foi a primeira das muitas vitórias do Dragão das Profundezas, que declarou as terras antes pertencentes aos dragões seu território, como herdeiro legítimo de In.

Sentindo-se purificado e sabendo da guerra que ocorria, Tatsu deixou seu retiro e resolveu enfrentar Yumitsulung, mas antes disso foi aconselhado pela Fênix a visitar os espíritos da luz, em busca da Tsuke-no-ken, a espada deixada por seu pai. Ao pedir a espada aos espíritos, estes recusaram, pedindo que Tatsu provasse suas capacidades em combate contra eles. Tatsu aceitou, mas foi derrotado no 1º combate. Os espíritos de luz não podiam ser atingidos por garras ou lâminas do dragão, mas estes por sua vez eram capazes de queimá-lo e cegá-lo com suas muitas luzes.

O Rei dos Dragões então elaborou um novo plano para derrotar os espíritos. Pediu para o irmão Ho-Tsuchi, que era um grande ferreiro, para forjar 5 espadas de lâmina espelhada. Desafiou novamente os espíritos da luz, mas desta vez com uma espada em cada uma das patas, e uma última na boca. Quando os espíritos atacaram Tatsu usou as lâminas para refletí-los uns contra os outros, fazendo-os colidir entre si. Derrotados os espíritos entregaram-lhe a Tsuke-no-Ken.

Agora munido com as duas espadas sagradas, nascidas da morte de seus pais. Tatsu avançou contra as forças de Yumitsulung, auxiliado por dragões, espíritos e tribos humanas que haviam sofrido ataques dos onis. As batalhas que se seguiram foram cruéis, e mais uma vez a terra tremeu sob a ira dos dragões. Na batalha final, sob uma tempestade de tufões de fogo, água e vento, o Rei dos Dragões derrotou o Dragão das Profundezas, cegando-o com a luz da Taiyou-no-Ken, e cortando-lhe ao meio com a Tsuke-no-Ken. Os onis foram destruídos ou expulsos para os ermos, e Tatsu foi aclamado por espíritos e humanos como sendo seu rei, fundando um novo reino com as bençãos de Lin Wu, que mais tarde tornaria-se o Império de Jade.

Bem, termino a história por aqui. Ficou bem resumida e com cara de “enciclopédia”, mas espero que não tenham dormido no meio! O Rei Tatsu mais tarde seria conhecido como Tekametsu, Imperador de Tamu-ra.

O plágio A inspiração para esta lenda vieram dos mitos japoneses de Izanagi e Izanami, e Susa-No-O e a Serpente (Yamata no Orochi). Agradecimentos especiais a meu jogador e amigo Pedro, que me emprestou o excelente livro Mitos e Lendas do Japão (Landy editora).

[1] Yume-no-Kuni: nome tamuriano para Sombria, o reino de Tenebra. Para os tamurianos é um lugar com uma noite eternamente estrelada, onde os incautos ficam presos em sonhos e pesadelos.

[2] Yumeno Hime: a donzela dos sonhos, aspecto tamuriano de Tenebra.

[3] Rokomata: Há dúvidas sobre qual deus seria Rokomata, acreditava-se que era um aspecto de Megalokk, mas com o retorno de Kallyadranoch, alguns historiadores dizem se tratar desta divindade.

[4] Reino das Planícies Douradas: Provavelmente parte de Arbória, reino de Allihanna.

[5] Vasto oceano governado pelo Rei dos Mares: Pelágia, reino do Grande Oceano.

[6] País das Chamas Eternas: Pira, reino de Thyatis.

[7] Wang-Ho: aspecto tamuriano de Hynnin.

As imagens usadas neste post pertencem aos artistas dragonmarkaleb, Ruth Taylor e finiens.

Sobre Edu Guimarães
Mestra RPG desde os 10 anos e nunca mais parou. Tormenta foi seu 1º cenário de fantasia medieval, e desde então, seu favorito. É nerd, biólogo e Leal e Bom.

7 Responses to Nova Tamu-ra: O Conto dos Dragões Ryuu

  1. Mestre Balthazar diz:

    A história em si ta muito boa, tem bem o estilo de narrativa japonesa, no entanto ela meio que fica difícil de associar ao cenário de Arton, vc pudia colocar mais referencias pra aproximar mais a história do cenário, tipo pelo que eu entendi o tigre, a tartaruga e a fênix estavam nos reinos divinos de Allihanna, Oceano e Thyatis (se n estou viajando) então vc pudia usar o nome dos planos e mencionar outras coisas, algum desses lugares da história era o plano de Lin-Wu? Onde era esse país dos sonhos, é o plano de alguem? E vc tbm pudia colocar Tamu-ra ao invés de “mundo terreno”, afinal é nela que a batalha ocorre, n? Mesmo que o império ainda não tinha sido formado.

    Mesmo assim tá bem legal, meus parabéns.

    • Di Benedetto diz:

      “Yo estava absurdamente inchada, violada por demônios que debruçavam-se sobre a dragoa, enquanto que de seu ventre saiam dragões-diabólicos (doragonus). Chocado com a cena, o dragão amaldiçou sua esposa e partiu, perseguido pelos doragonus até as fronteiras das terras infernais.”

      MWHAHAhAHHAHaHHAHAhaHahu.

      FICOU ARROMBADA! 8D

      • Di Benedetto diz:

        Ficou legal Edu. Bem estilão mito japonês. Você inspirou em alguma coisa?

        Os companheirros sagrados eram Alihanna, Grande Oceano e Tyhatis? [2]

        Eu sempre achei que o Tekametsu era o avatar de Lin Wu. Se eu fosse incoporar o mito numa campanha minha, ia colocar que no final o deus lhe concedeu o privilegio de se tornar um, e ele aceitou.

        (Como a Wynna já fez com o Talude . Só que o Talude recusou.)

  2. Macus diz:

    Só uma coisa Di Benedetto, essa estória de avatar de Wynna é bem antiga. Depois do trio criar o modelo Escolhido dos Deuses, é citado na estória de Talude que Wynna chamou ele para servir ao seu lado, e não ser seu avatar.

    Gostei bastante da estória, mas ele ficaria melhor se as referências fossem um pouco mais diretas, ou pelo menos houvesse uma explicação entre parenteses depois de cada no da divindade.

  3. Di Benedetto diz:

    Bah. Malditos retcons.

  4. Edu Guimarães diz:

    Obrigado pelos comentários, sugestões e elogios😀

    Eu editei o post colocando referências que podem ser vistas no fim do texto, tentei colocar os nomes entre parênteses dentro do próprio texto, mas achei q a narrativa ficava quebrada.

    Como natural dos mitos, deixei muitas partes em aberto de propósito, por exemplo: “A cachoeira de Nagareboshi ficam em Sora, o plano divino de Lin Wu?”, minha resposta é: “Talvez”. Eu não pensei nisso nem vi como necessário para o andamento do mito. E essa lacuna pode ser usada pelos mestres: ele poderia dizer q a cachoeira esta no meio das Mts. Sanguinárias, e o samurai do grupo que deseja se purificar de um pecado ruma para lá. Ou talvez, se o grupo for de nível mais alto, coloque a cachoeira no reino de Lin Wu, ou outro plano divino, protegida pelo Rei Tigre.

    A região que consistia Tamu-ra fazia parte do território dos dragões onde ocorreu a guerra, mas não estou bem certo se somente esta região, provavelmente englobava parte do Grande Norte também.

    • Mestre Balthazar diz:

      Uma idéia, ponha os números das legendas que estão no texto em sobrescrito ao invés dos colchetes, deixa o texto mais limpo. No mais ta legal e foi bom adicionar as informações porque eu nem tinha sacado a parte da Tenebra.

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